A expressão não é de minha autoria. Ouvi-a numa reportagem televisiva que falava da manifestação de dia 12, em Lisboa, Porto e outras cidades, onde os jovens demonstraram o seu descontentamento pelas condições sociais em que se encontram, num protesto denominado “da geração à rasca”.
Esta expressão deriva de uma outra, surgida nos anos 90, no seguimento de diversas manifestações estudantis contra as políticas educativas de Manuela Ferreira Leite.
“Geração Rasca” foi a frase que Vicente Jorge Silva usou para intitular um editorial do jornal Público.
Segundo este senhor, a nova geração que se manifestava não tinha convicções, valores ou princípios e era constituída por jovens irresponsáveis, indisciplinados e individualistas.
Esta geração, a minha, revelou-se, agora, ser a mais bem qualificada de sempre em Portugal.
Segundo o Instituto Nacional de Estatística, nunca houve neste país tantos licenciados, mestrandos ou doutorados como hoje.
Os engenheiros, investigadores, cientistas e outros profissionais produzidos pela “geração rasca” são, afinal, conceituados e reconhecidos em todo o lado pela qualidade da sua formação e pela sua produtividade.
Para exemplo, bastará enunciar o “Pacto de Competitividade” proposto pela Alemanha e França (aceite por Portugal a troco do reforço do Fundo Europeu de Resgate) que visa, entre outros objectivos, facilitar a importação alemã e francesa de engenheiros portugueses (e não só), sem qualquer contrapartida para o país “formador”.
Apesar deste facto, Medina Carreira afirmava, na iniciativa 125 minutos com..., no Casino da Figueira da Foz, em Dezembro de 2009, que a juventude portuguesa está cada vez mais rasca. “O que é que se vai fazer com esta cambada, de 14, 16, 20 anos que anda por aí à solta? Nada, nenhum patrão capaz vai querer esta tropa-fandanga”, dizia com a verborreia que normalmente caracteriza o seu discurso.
Será o facto de “andarem por aí à solta”, não conquistarem reconhecimento e integração na sociedade, culpa dos jovens de hoje?
Não será, antes, uma herança (ou um fardo) que lhe foi deixada pelas gerações anteriores?
A autodenominada “geração à rasca” queixa-se, com propriedade, que não consegue arranjar emprego, sair de casa dos pais, comprar carro ou casa própria, que tem de sair do país para conseguir uma oportunidade, ou então aceitar estágios atrás de estágios (muitos não remunerados) ou trabalho precário com remunerações que variam, na sua maioria, entre os 500 e os 800 euros.
Este fenómeno, baptizado pelos franceses de geração dos “1000 euristas” (tenha-se em consideração as devidas diferenças salariais entre os dois Estados) tem-se propagado por outros países do sul da Europa, mas não só (Espanha, Itália, Grécia), chegando agora ao nosso país. O denominador comum é a dificuldade dos jovens licenciados conquistarem um lugar na sociedade e construírem a sua vida de forma autónoma.
Verifica-se uma grande assimetria entre a geração (anterior à minha) que teve todos os direitos (sociais, laborais, etc.) e uma geração (a actual) que se vê privada desses mesmos direitos, não tem acesso fácil a emprego, nem qualquer tipo de segurança laboral ou social e vêem, com desagrado, o legado que a primeira e segunda geração lhes está a deixar. Se não, veja-se:
Além de enfrentar um futuro instável e adverso, com emprego precário ou inexistente, das regalias sociais e das reformas a diminuir ou a desaparecer, ainda tem de pagar o défice público, evitar a falência da segurança social, garantir a sustentabilidade do SNS e do ambiente e ainda arranjar “vontade” para ter filhos e garantir a existência de gerações futuras…
Não é pois de estranhar que os jovens devolvam o epíteto “Geração rasca” àqueles que, por acção ou omissão, lhes deixaram tão pesada herança. Eles são, de facto, gente que está à rasca, mas não é rasca!
De quem é a culpa? De ninguém, em princípio, porque em Portugal ninguém é responsabilizado por coisa alguma. A culpa é dessa coisa sem rosto nem cartão de cidadão a que se chama, habitualmente, “sistema político e económico”.
Com efeito, as políticas públicas tomadas pelos sucessivos governos (de esquerda ou de direita) são orientadas pela vox populi, para alcançar a máxima popularidade no imediato. Percebe-se porquê: os governos querem ser reeleitos e, para tal, precisam do apoio popular maioritário.
Este sistema “do povo, pelo povo e para o povo” enviesa na necessidade de agradar aos eleitores, no imediato (ou, pelo menos, para os próximos 4 ou 5 anos) e inibe ou limita quaisquer medidas tomadas a longo curso que pense num futuro sustentado nos recursos disponíveis e não nos pretendidos. Estas não são consideradas válidas, necessárias ou adequadas “ao momento”, quer pela oposição política quer pela generalidade da população...
Na minha opinião, não há democracia “à séria” sem uma sociedade civil forte. Sem medo de tomar posição sobre o destino do país e que afronte o poder vigente.
Como diria um amigo há bem pouco tempo, é certo que andamos, cada um à sua maneira, e com os seus meios, a tentar desbravar um caminho para a vida. Mas um dia destes tem de chegar a hora de tomar as rédeas e tentar (pelo menos, tentar!) transformar este país num lar para uma “sociedade aberta, desempoeirada, livre e fraterna”.
Com o rumo que levamos actualmente, não chegamos lá. Assim sendo, que se manifestem os jovens e os menos jovens, que exteriorizem a sua discordância e o descontentamento pela situação em que nos encontramos todos. É nestes, e em todos os que não estão satisfeitos ou acomodados, que se encontra a base para uma mudança político-social profunda que se afigura cada vez mais como necessária.
quarta-feira, 23 de março de 2011
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